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12/10/2025 - Proposta prevê investimento consorciado de R$ 500 a 700 milhões para transformar lixo em eletricidade e distribuir energia proporcionalmente entre os sete municípios
São Caetano do Sul, 12 de outubro de 2025 – O Grande ABC pode se tornar referência nacional em gestão sustentável de resíduos sólidos com a implementação de uma Unidade de Recuperação Energética (URE) regional, operada através do Consórcio Intermunicipal Grande ABC. A proposta prevê que os sete municípios da região – Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra – invistam de forma consorciada na construção de uma usina capaz de transformar entre 800 e 1.200 toneladas diárias de resíduos não recicláveis em energia elétrica limpa.
O modelo inovador estabelece que cada município participante receberá energia elétrica de forma proporcional à quantidade de resíduos encaminhados à unidade, criando um sistema justo e sustentável que beneficia toda a região. Segundo estudos preliminares, a URE regional teria capacidade instalada de 40 a 50 megawatts, suficiente para abastecer o equivalente a 250 mil residências.
Transformando desafio em oportunidade energética
A região do Grande ABC gera diariamente cerca de 3.000 toneladas de resíduos sólidos urbanos. Atualmente, após a separação dos materiais recicláveis, os rejeitos são destinados a aterros sanitários distantes, gerando custos elevados de transporte e ocupação crescente de áreas. A URE regional transformaria esse passivo ambiental em ativo energético, reduzindo drasticamente a dependência de aterros.
"O Grande ABC já possui uma estrutura de cooperação consolidada através do Consórcio Intermunicipal, criado em 1990 justamente para tratar de questões regionais como os resíduos sólidos. Esta é uma evolução natural dessa parceria bem-sucedida, agregando agora a dimensão da geração de energia limpa", destaca a análise técnica que embasa a proposta.
Distribuição proporcional e justa
O sistema de distribuição proporcional de energia funcionaria da seguinte forma: cada município que encaminhar resíduos à URE receberá créditos de energia elétrica equivalentes ao volume processado. Por exemplo, se São Bernardo do Campo enviar 30% do total de resíduos tratados na usina, receberá 30% da energia gerada. Este modelo:
- Estimula a eficiência: Municípios que otimizarem coleta e triagem aproveitarão melhor seus créditos energéticos
- Reduz custos com aterros: Economia estimada de R$ 80 a R$ 150 por tonelada com disposição final
- Gera créditos de carbono: Receita adicional pela redução de emissões de gases de efeito estufa
- Produz energia local: Reduz perdas na transmissão ao gerar eletricidade próxima aos centros consumidores
Viabilidade técnica e econômica
Com capacidade para processar entre 800 e 1.200 toneladas diárias, a URE regional operaria em escala economicamente viável, ao contrário de unidades isoladas por município. O investimento estimado entre R$ 500 e 700 milhões seria compartilhado entre os sete municípios de acordo com o porte e capacidade de cada um, tornando o projeto factível financeiramente.
A tecnologia de recuperação energética é amplamente utilizada mundialmente, com mais de 2.500 usinas em operação na Europa, Ásia e Estados Unidos. No Brasil, a primeira URE da América Latina foi inaugurada recentemente em Joinville (SC), e a URE Barueri (SP) está em construção, com previsão de início de operação em 2027.
"As UREs modernas não são incineradoras tradicionais. São sistemas avançados com tecnologia de ponta para controle de emissões, atendendo aos padrões ambientais mais rigorosos do mundo. Apenas o lixo não reciclável é processado, após a separação de todos os materiais que podem ser reciclados", explica o estudo técnico.
Benefícios ambientais comprovados
A implantação da URE regional traria múltiplos benefícios ambientais para o Grande ABC:
- Redução de 8 vezes nas emissões de gases de efeito estufa comparado ao aterramento
- Diminuição de até 240 mil toneladas de CO² por ano, equivalente às emissões de 250 mil automóveis
- Redução de 50 mil m² de ocupação em aterros sanitários a cada ano
- Geração de energia limpa e renovável para consumo local
- Recuperação de metais durante o processo de triagem
- Conformidade com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que estabelece hierarquia com aterros como última alternativa
Complementaridade com reciclagem
Um ponto fundamental do projeto é que a URE não compete com a reciclagem, mas a complementa. Os materiais recicláveis continuam sendo separados nas coletas seletivas municipais e destinados às cooperativas de catadores. A URE processaria apenas os rejeitos – aqueles materiais que não têm viabilidade técnica ou econômica para reciclagem.
"O sistema funciona em três etapas: primeiro, a reciclagem captura papel, plástico, vidro e metais; segundo, a compostagem trata os resíduos orgânicos; terceiro, a URE transforma os rejeitos finais em energia. É um ciclo integrado e sustentável", detalha a proposta.
Próximos passos
Para viabilizar o projeto, o Consórcio Intermunicipal Grande ABC precisaria:
- Formalizar grupo de trabalho específico para URE regional com representantes técnicos dos sete municípios
- Contratar estudos de viabilidade completos (técnico, econômico, ambiental e jurídico)
- Definir localização ótima considerando logística, impacto urbano e licenciamento ambiental
- Estruturar modelo de Parceria Público-Privada para construção e operação
- Realizar estudos ambientais (EIA/RIMA) e processo de licenciamento na CETESB
- Promover consultas e audiências públicas para engajamento da sociedade
O prazo estimado entre o início dos estudos e o funcionamento da usina é de 6 a 8 anos, incluindo todas as fases de planejamento, licenciamento e construção.
Exemplo de São Caetano do Sul
São Caetano do Sul, que gera aproximadamente 200 toneladas de resíduos por dia, se beneficiaria especialmente do modelo consorciado. Com o volume municipal insuficiente para viabilizar uma URE exclusiva, a solução regional permite acesso à tecnologia com investimento proporcional e retorno em energia limpa.
"São Caetano já é referência nacional em coleta de lixo, com nota máxima no ranking da ABES. A URE regional representaria mais um passo rumo à sustentabilidade, transformando nosso resíduo em energia para iluminar as casas e empresas da cidade", projeta a análise.
Alinhamento com metas nacionais e globais
A iniciativa está alinhada com:
- Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares): Meta de 994 MW de potência instalada em UREs até 2040
- Compromisso Global de Metano (COP26): Redução de 30% nas emissões até 2030
- Lei do Combustível do Futuro: Incentivos ao aproveitamento energético de resíduos
- Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): Especialmente ODS 7 (Energia Limpa), ODS 11 (Cidades Sustentáveis) e ODS 12 (Consumo Responsável)
Impacto econômico regional
Além dos benefícios ambientais, a URE geraria impactos econômicos positivos:
- Geração de 150 a 200 empregos diretos na operação
- 500 a 700 empregos indiretos na cadeia de fornecedores
- Receita anual estimada de R$ 80 a 120 milhões com venda de energia
- Economia de R$ 25 a 50 milhões por ano com custos de aterramento
- Receita adicional com créditos de carbono estimada em R$ 5 a 10 milhões anuais
- Atração de investimentos privados de R$ 500 a 700 milhões na região
Modelo pioneiro no Brasil
Se implementada, a URE do Grande ABC seria a primeira experiência brasileira de unidade de recuperação energética operada em modelo 100% consorciado, com distribuição proporcional de energia entre múltiplos municípios. Este modelo pioneiro poderia inspirar outras regiões metropolitanas do país a adotarem soluções integradas para gestão de resíduos.
"O Brasil tem 28 regiões metropolitanas com mais de um milhão de habitantes. Todas poderiam ter UREs. O Grande ABC tem a oportunidade de ser protagonista nessa transformação, mostrando que cooperação intermunicipal e tecnologia limpa são o caminho para cidades mais sustentáveis", conclui o estudo.
Transparência e participação social
O desenvolvimento do projeto deve priorizar absoluta transparência e participação da sociedade. As audiências públicas durante o licenciamento ambiental serão fundamentais para esclarecer dúvidas, apresentar os rigorosos sistemas de controle de emissões e garantir que todos os stakeholders – incluindo cooperativas de catadores, movimentos ambientalistas e população em geral – tenham voz no processo.
Sobre o Consórcio Intermunicipal Grande ABC
Criado em 1990, o Consórcio reúne os sete municípios da região (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) para planejamento e execução de políticas públicas regionais. Desde 2010 atua como consórcio público de direito público. A gestão de resíduos sólidos foi um dos pilares de sua constituição, com o Grupo de Trabalho de Resíduos Sólidos operando há mais de 27 anos.
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