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22/09/2025 - Cidade que já foi símbolo da pujança industrial brasileira perde importantes fábricas e vive transformação econômica profunda
São Caetano do Sul, município que durante décadas foi considerado um dos principais polos industriais do Brasil, vive hoje um processo acelerado de desindustrialização. A saída de empresas históricas como ZF do Brasil, o fechamento da Cerâmica São Caetano, o fim das operações das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, além das constantes ameaças de fechamento da General Motors, redesenharam completamente o perfil econômico da cidade.
Um passado de glória industrial
São Caetano do Sul pertence à região do ABC Paulista, que foi marcada pelo desenvolvimento industrial e automobilístico. No início do século XX, a cidade destacou-se pela produção cerâmica e química, tendo sido endereço da Louças Claudia e da Fábrica de Rayon Matarazzo, além da Cerâmica São Caetano, fundada por Roberto Simonsen.
A cidade chegou a abrigar algumas das mais importantes indústrias do país, que empregavam milhares de trabalhadores e movimentavam toda a economia regional. As Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM) foram o maior conglomerado industrial da América Latina, empregando mais de 30.000 pessoas em seu auge, representando cerca de 6% da população ativa da cidade de São Paulo na década de 1930.
O êxodo industrial
ZF do Brasil: pioneira na saída
Em 15 de agosto de 1958, em São Caetano do Sul, a ZF iniciou as obras para a construção da primeira planta da companhia fora da Alemanha. Em menos de uma década, a ZF do Brasil começou a atuar fortemente no segmento de veículos comerciais, produzindo transmissões e direções. Em 1997, toda a produção de São Caetano do Sul foi transferida para a planta sorocabana. A transferência marcou o início do processo de desindustrialização da cidade.
Cerâmica São Caetano: fim de uma era
A Cerâmica São Caetano S/A foi uma das maiores e mais importantes indústrias cerâmicas do Brasil. Fundada no início do século XX, por Roberto Simonsen, produzia telhas, tijolos refratários e cerâmica de revestimento, sendo a pioneira na produção de ladrilhos cuja qualidade chegou a ditar o padrão de excelência de uma época, encerrando suas atividades na última década do século XX. Após o fechamento, o terreno de 300 mil m² da antiga Cerâmica São Caetano foi transformado pela Sobloco no Espaço Cerâmica, considerado o maior projeto de revitalização urbana do país. Embora tenha gerado um moderno bairro planejado, a transformação simboliza a mudança de perfil da cidade: de industrial para comercial e residencial.
Indústrias Matarazzo: declínio histórico
Em 1990, todo o complexo químico das Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, localizado em São Caetano do Sul, foi desativado, marcando o fim de uma era industrial no Grande ABC. No último fim de semana de dezembro de 2024, teve início o processo de demolição da histórica chaminé das IRFM, localizada no bairro Fundação. A demolição marca o fim de um dos principais símbolos do legado industrial da cidade. A área deixada pela Matarazzo tornou-se um dos maiores passivos ambientais da região. A Indústria Química Matarazzo implantou seu complexo industrial na Rua Mariano Pamplona, em 1932, com atividades de fabricação de soda cáustica, cloro, ácido sulfúrico, rayon, celulose e produção de agrotóxicos. A partir de 1987 nenhuma atividade industrial é exercida no local, com investigações revelando elevados níveis de concentração de mercúrio e Hexaclorociclohexano no solo.
Ameaças constantes: o caso da General Motors
A General Motors, que emprega cerca de 8.500 trabalhadores em São Caetano do Sul, tem feito ameaças constantes de fechamento desde 2019. Em comunicado enviado aos funcionários, o presidente da GM Mercosul, Carlos Zarlenga, informou que "investimentos e o futuro" do grupo na região dependem da volta da lucratividade das operações. Apenas dois meses depois da declaração que caiu como uma bomba para o setor, a montadora sinalizou que tudo pode ter sido parte de uma manobra agressiva para forçar a redução de custos e receber incentivos fiscais. Em março de 2019, a empresa anunciou um investimento de R$ 10 bilhões para as fábricas de São Caetano do Sul e São José dos Campos.
Outras perdas industriais
A Villares Metals, fundada em 1944 em São Caetano do Sul pelo engenheiro Luiz Dumont Villares, liderou o mercado de aços especiais de alta liga na América Latina. Entre o fim dos anos 90 e o início dos anos 2000 o Grupo Villares foi totalmente desmembrado.
Um fenômeno nacional
O processo de desindustrialização não é exclusividade de São Caetano do Sul. Dados do IBGE revelam que em dez anos, o setor industrial brasileiro perdeu 9.579 empresas, representando o fechamento de 1 milhão de postos de trabalho. No ABC, o PIB industrial das sete cidades passou de R$ 28,9 bilhões em 2013 para R$ 24,3 bilhões em 2016, uma queda de 16% em valores nominais.
Transformações urbanas e novos desafios
O fechamento de empresas, observado na região desde a década de 1980, causa um fenômeno urbano chamado degradação de áreas industriais, com a ocupação dos terrenos que abrigavam fábricas por outras atividades, como shoppings ou empreendimentos imobiliários.
Após anos do fechamento do antigo Shopping São Caetano, em 2011, a rede Multiplan inaugurou na cidade o Park Shopping São Caetano, no Espaço Cerâmica, um bairro planejado no terreno de 300 mil m² da antiga Cerâmica São Caetano.
O futuro pós-industrial
São Caetano do Sul, que hoje possui o melhor IDH do Brasil, busca se reinventar economicamente. O comércio tornou-se um forte alvo econômico da cidade, que abriga a matriz da rede de lojas Casas Bahia, fundada em 1952 pelo imigrante polonês Samuel Klein.
A cidade mantém ainda importantes empresas como a sede da General Motors do Brasil, e a floricultura Giuliana Flores, mas o perfil industrial que a caracterizou por décadas dá lugar progressivamente a um modelo econômico baseado em serviços, comércio e desenvolvimento imobiliário.
Reflexões sobre um legado
A desindustrialização de São Caetano do Sul reflete transformações econômicas mais amplas do país e da economia global. A história das IRFM em São Caetano do Sul é um lembrete da importância de preservar o patrimônio industrial como parte da memória coletiva. A trajetória das Indústrias Matarazzo é um espelho das transformações sociais e econômicas do Brasil no século XX.
Enquanto a cidade se adapta aos novos tempos, resta a questão sobre como equilibrar desenvolvimento urbano, preservação histórica e a busca por um novo modelo econômico que mantenha a prosperidade e a qualidade de vida que sempre caracterizaram São Caetano do Sul.
Este processo de transformação econômica continua em andamento, com a cidade buscando alternativas para manter sua relevância econômica na região metropolitana de São Paulo, agora sob um novo paradigma pós-industrial.
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